Carta a meu Pai
Hoje pela manhã percebi que tenho falado pouco de ti. Os anos vão passando e, a cada dia, as lembranças vão sumindo do nosso dia a dia. Lembro-me de como eu podia sentar em seu colo, que, diga-se de passagem, era duro e magro. Ainda recordo dos detalhes e sabia bem quando seus olhos estavam vermelhos; percebia que algo estava errado e lhe dava toda a privacidade de que precisava. Nesses últimos anos, muitas coisas aconteceram, e às vezes não ter alguém para compartilhar é uma tristeza que dói fundo. Hoje frequento a igreja em que meu filho é pastor. Tu ias gostar de ver o menino pregando como gente grande. Ainda há algo nele de garoto que precisa ser lapidado. Como se diz: quando era menino, fazia coisas de menino. Essa parte ainda está presente na vida dele, mas acredito que logo se tornará homem e deixará de vez as coisas de menino. Tenho dado aulas de teclado e de futebol e, por incrível que pareça, faço Uber. Na sua época não existia esse tal de Uber; é como se fosse um táxi...