Carta a meu Pai


  Hoje pela manhã percebi que tenho falado pouco de ti. Os anos vão passando e, a cada dia, as lembranças vão sumindo do nosso dia a dia. Lembro-me de como eu podia sentar em seu colo, que, diga-se de passagem, era duro e magro. Ainda recordo dos detalhes e sabia bem quando seus olhos estavam vermelhos; percebia que algo estava errado e lhe dava toda a privacidade de que precisava. Nesses últimos anos, muitas coisas aconteceram, e às vezes não ter alguém para compartilhar é uma tristeza que dói fundo.

Hoje frequento a igreja em que meu filho é pastor. Tu ias gostar de ver o menino pregando como gente grande. Ainda há algo nele de garoto que precisa ser lapidado. Como se diz: quando era menino, fazia coisas de menino. Essa parte ainda está presente na vida dele, mas acredito que logo se tornará homem e deixará de vez as coisas de menino. Tenho dado aulas de teclado e de futebol e, por incrível que pareça, faço Uber. Na sua época não existia esse tal de Uber; é como se fosse um táxi moderno, porém feito com o próprio carro. Algo temporário — espero realmente que seja assim. Não sei se te contei que me aposentei. Tinha planos fabulosos para a aposentadoria e, acredite, todos foram frustrados. Achei que nesse momento estaria morando numa praia, fazendo serviços temporários e ajudando os praianos, mas é algo que, com o tempo, tenho descartado. A vida nem sempre é como planejamos, e isso vamos aprendendo com o passar do tempo.

A Paula, que tu chegaste a pegar nos braços um dia — e já faz tempo — está casada e tem dois filhos. O menor vai se operar no início de março; tenho orado, mesmo em silêncio, por ele. A Leny se tornou uma mulher de oração diária, leitora assídua da Bíblia e de outros livros que nem sei enumerar.

Tenho tentado achar meu lugar após ter me aposentado, mas ainda estou meio perdido, tentando algo aqui e acolá. Já caí em alguns golpes que hoje afetam até meu salário do INSS. Às vezes a gente faz coisas sem saber o que está fazendo, e nada ajuda a consertar esse erro.

Às vezes a vida passa e a gente nem sente, como um dia vindo atrás do outro, como um relógio rodando e rodando, num ciclo que parece não ter fim.

Tenho andado meio desanimado com a humanidade. Muita gente se aproveitando de pessoas que, numa distração, acabam sendo lesadas em suas rendas. A tecnologia só tem trazido prejuízo para muitos, e minha vontade, a cada dia, é apenas me isolar e nada mais. Essas palavras não foram animadoras, mas espero que um dia eu possa trazer notícias melhores quando vier falar contigo. A saudade invade meu peito todos os dias.

Servo Camargo

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